sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mecanismo de Antikythera

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Kentaro Mori
Este texto foi publicado na revista ‘Mistério‘ n.2

Por que os gregos antigos não desenvolveram uma revolução industrial? Este é um dos mais intrigantes enigmas da História, uma vez que sabemos que eles alcançaram altos graus de sofisticação em ciências como a matemática e a astronomia. Um dos exemplos mais citados do avanço da ciência grega antiga é a estimativa da circunferência da Terra por Erastótenes em torno de 200 AC. Aliando a engenhosa medida de sombras com conhecimentos matemáticos, seu erro foi de apenas algumas centenas de quilômetros.

Uma das teorias que explicaria a falha dos gregos antigos sugere que embora houvesse grandes gênios eles não existiam em número suficiente para sustentar uma revolução científica e tecnológica. Ou talvez eles não fossem desejosos de aplicar suas grandes abstrações no mundo real, quem sabe por um desprezo ao trabalho manual em uma sociedade escravagista com ampla mão-de-obra.

A teoria pareceria razoável, não fosse pela descoberta no início do século XX do mais complexo instrumento tecnológico da Antigüidade conhecido até hoje: o mecanismo de Anticitera. Este artefato isolado, como uma espécie de pedra de Rosetta da ciência e tecnologia, permite que tenhamos acesso a toda uma história que não pensávamos que realmente existia.

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Uma corbita, barco mercante em que o mecanismo de Anticitera estava quando afundou no séc I AC

Arqueologia Subaquática
A descoberta do notável mecanismo começa em 1900. O mergulhador Elias Stadiatos teve uma surpresa e tanto: a uma profundidade de pouco mais de 40 metros no mar próximo da pequena ilha grega de Anticitera, ele viu o que descreveu aterrorizado ao seu capitão como “um monte de mulheres nuas e mortas”. O que Stadiatos tinha visto deviam ser na verdade estátuas de bronze, apenas parte do magnífico tesouro que permanecera perdido por quase dois mil anos quando um navio mercante grego afundara nas águas da região.

O mais valioso artefato recuperado deste carregamento passou inicialmente despercebido. Quando retirado das águas, seria algo como uma caixa de madeira carcomida, do tamanho aproximado de uma caixa de sapatos. Devido às condições precárias, o objeto logo se desfez em pedaços, mas por outro lado isto permitiu que percebessem algumas engrenagens agora expostas, e o artefato passou a ser conhecido como o mecanismo de Anticitera.

As inscrições em grego permitiram datá-lo de forma aproximada, e tal datação coincide com a dos outros objetos encontrados nos destroços do navio. O mecanismo de Anticitera foi construído e afundou nas águas do Mediterrâneo por volta do século IAC.

Pensou-se que seria um astrolábio, contudo havia os que argumentavam com razão que as inscrições eram complicadas demais para um mecanismo assim. Ao mesmo tempo, havia os que diziam que os gregos do século I AC não podiam construir nem mesmo um astrolábio. Passariam-se mais cinco décadas até que o trabalho de restauração do mecanismo de Anticitera chegasse a um ponto em que poderia receber maior atenção, o que foi feito de forma quase heróica pelo físico e historiador de ciência Derek de Solla Price.

Estudos pioneiros
Em 1951 Derek Price foi ao Museu Nacional em Atenas analisar por si mesmo o mecanismo. Ele estava familiar com a construção de astrolábios medievais, e uma longa jornada de pesquisas começaria.

Em sua primeira publicação sobre o tema em 1955, Price situa o mecanismo de Anticitera como precursor de todos relógios mecânicos. Logo depois, em um fascinante artigo na revista Scientific American de junho de 1959, ele chama a atenção do mundo científico a diversos aspectos do mecanismo, apontando que devia ser um computador astronômico a partir das inscrições com referências ao zodíaco, corpos celestes e aos meses do ano. Estes mostradores são singulares por apresentar claras marcações periódicas, e se inferirmos a existência de ponteiros móveis, isto estabelece o mecanismo de Anticitera como o mais antigo instrumento cientificamente graduado que conhecemos.

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O mecanismo de Anticitera, como preservado hoje

Todas as mais de trinta engrenagens componentes do mecanismo original aparentam ter sido cortadas da mesma chapa de bronze com uma pequena quantidade de latão, com dentes simples compostos de triângulos com ângulo de 60 graus em todas, e portanto intercambiáveis. A partir das engrenagens, Price conjeturou que o giro de uma engrenagem motriz agora perdida movimentava todas as outras levando ponteiros a indicar o movimento de corpos celestes ao longo do tempo.

O mecanismo seria assim uma espécie de simulador capaz de indicar posições celestes em qualquer data, bastando girar uma manivela para frente ou para trás. Este giro poderia ser mesmo automatizado, representando o céu junto com um relógio de água.

A hipótese era tão ousada que se chegou a propor que o artefato teria adentrado no meio dos destroços do navio (sic) em um período medieval. De fato, por tudo que sabemos, o mecanismo de Anticitera está mais de mil anos à frente de seu tempo. Mecanismos conhecidos com grau de sofisticação similares só viriam a surgir depois do século XIII ou ainda depois. Mas novamente, uma série de evidências indica com segurança que ele data do século I AC. A hipótese é sem dúvida extraordinária, mas é acompanhada de uma série de evidências extraordinárias.
A Decodificação de Price
Mais de vinte anos depois de iniciar seu trabalho, tendo por base fotografias recentes de raios-X e raios gama do objeto, Price publicaria seu trabalho final sobre o mecanismo. Em Gears from the Greeks (1974) ele atinge a meta de decodificá-lo, propondo como funcionava originalmente.

Segundo a reconstrução conjetural de Price, o mecanismo de Anticitera era um arranjo de engrenagens criadas e dispostas para indicar as posições do Sol e da Lua de acordo com o calendário. A reconstrução revela aspectos incríveis.

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Radiografias do mecanismo

No lado científico, construir o mecanismo de Anticitera envolveu trabalhar a partir de uma série de tabelas astronômicas com precisão admirável para povos que observavam o céu sem telescópios, tabelas essas que os gregos devem ter herdado dos babilônios. Observando tais tabelas, os ciclos astronômicos se fazem mais claros.

O mecanismo de Anticitera incorporaria a razão astronômica de 254/19, o que é uma aproximação excelente do valor real, irracional, com erro aproximado de apenas uma parte em 86.000. Várias explicações podem ser imaginadas para que os gregos antigos tenham chegado a tal valor, mas a mais econômica – sem recorrer a seres extraterrestres ou descendentes da Atlântida – sugere que ao observar e mesmo compilar tabelas astronômicas eles possam ter percebido o ciclo de 19 anos de equinócios, solstícios e fases da Lua. Dezenove anos equivalem a aproximadamente 235 ciclos de fases da Lua, que por sua vez equivalem a 235+19=254 revoluções da Lua em relação às estrelas, sendo a adição derivada do fato de que há uma revolução a mais por ano enquanto a Lua gira conosco ao redor do Sol.

Aplicar a razão de 254/19 com engrenagens não é tarefa fácil, e aqui entra o notável aspecto tecnológico do mecanismo. Com engrenagens simples de eixo fixo, por mais complexos os arranjos que possamos criar, ficamos limitados a multiplicações e divisões de números. Para efetuar adição ou subtração em nosso pequeno computador mecânico, precisamos de um enorme avanço tecnológico: a engrenagem diferencial.

O uso moderno mais cotidiano da engrenagem diferencial é nos automóveis, onde ela permite que as rodas de cada lado do carro girem a velocidades diferentes, com uma distribuição proporcional da tração do eixo. Um diferencial é, basicamente, uma engrenagem de eixo móvel capaz de girar livremente entre duas outras. O movimento do eixo móvel é equivalente à metade do movimento somado das duas engrenagens em questão. Esta engrenagem diferencial teria sido inventada pelo inglês James Starley, em 1877.

Segundo Price, o mecanismo de Anticitera incorpora de forma engenhosa uma engrenagem diferencial, e é este seu aspecto tecnológico mais notável. Há relatos lendários chineses falando sobre uma “carruagem apontando ao Sul” usada em batalhas em 1000 AC ou mesmo antes. Seria um dispositivo de navegação que movido com cuidado, sempre apontava ao Sul a partir do movimento diferenciado de suas duas rodas. Tal carruagem incorporaria um diferencial, contudo evidências diretas de tal mecanismo datam apenas de 300 DC em diante. Desta forma, o diferencial do mecanismo de Anticitera também é o mais antigo diferencial conhecido de forma segura.

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Carruagem chinesa “apontando para o Sul”, que conteria um diferencial

Tanto científica quanto tecnologicamente, o mecanismo de Anticitera se revela fantástico e singular.
Especulação
Como devemos entender a singularidade ímpar deste mecanismo aparentemente mil anos à frente de seu tempo? Price já sugerira que ele é o “progenitor venerável de toda nossa pletora presente de instrumentos científicos”. No Renascimento os fabricantes de instrumentos científicos evoluíram dos relojoeiros, e a tradição de relojoaria advém de uma tradição de construção de modelos astronômicos mecânicos – sendo o mecanismo de Anticitera o mais antigo exemplo.

De alguma forma o conhecimento sobre esta linhagem importante de modelos mecânicos foi tragicamente perdido, mas os frutos da tradição em si mantiveram uma continuidade da Grécia Antiga ao mundo moderno, sendo os árabes uma ponte crucial.

A especulação é maior quanto ao uso do mecanismo simulador dos movimentos celestes. Seria um uso mais utilitário, quem sabe um auxílio na educação de jovens sobre astronomia ou seria mais um brinquedo de demonstração ou decoração em grandes monumentos ou para entreter os mais abastados? O professor Christopher Zeeman faz sugestões curiosas sobre o mecanismo de Anticitera.

Segundo ele, primeiro os astrônomos babilônicos observaram os movimentos celestes como vistos da Terra. Depois, os matemáticos gregos criaram notações e cálculos para descrever tais movimentos. Vieram então os engenheiros gregos, que criaram modelos mecânicos para reproduzir esses movimentos, sendo o mecanismo de Anticitera um exemplo. Com o auxílio de tais modelos, os estudantes aprenderam astronomia até culminar em Ptolomeu, que por volta de 150DC teria interpretado a mecânica celeste como uma reprodução literal desses mecanismos – propondo esferas celestes girando ao redor da Terra!

Os planetários mecânicos podem ter influenciado o pensamento humano por mais de 1000 anos, e o que era um simples simulador do céu como visto da Terra teria dado a sólida noção de que nosso planeta realmente estava no centro do Universo, e esferas celestes giravam ao seu redor movidas por uma complexa engenharia oculta criada por Deus.

O fato é que a mera existência do mecanismo de Anticitera torna plausível toda uma série de aparelhos descritos nos poucos manuscritos que restaram da Antigüidade e que do contrário pensaríamos ser completamente fantasiosos. Seria realmente mera lenda que Arquimedes teria repelido uma frota de navios utilizando espelhos concêntricos? Em Rodes, Filo de Bizâncio encontrou e descreveu um políbolo, uma catapulta “metralhadora” capaz de atirar em série sem necessidade de recarregamento constante, o que deve ter sido um aparelho consideravelmente complexo e se torna agora mais real que lendário.
De forma ilustrativa, podemos encontrar uma referência crucial em relação ao mecanismo de Anticitera. Em 79 AC, o orador e político romano Marco Túlio Cícero foi também a Rodes, provável cidade onde o mecanismo de Anticitera foi construído, e descreveu em De natura deorum II:

“Suponha que um viajante leve a Cítia ou Bretanha o planetário recentemente construído por nosso amigo Posseidônio, que a cada revolução reproduz os mesmo movimentos que têm lugar nos céus a cada dia e noite o Sol, a Lua e os cinco planetas. Irá qualquer nativo duvidar que este planetário era o trabalho de um ser racional?”

A descrição de Cícero pareceria fantasia, mas agora indica a existência muito plausível de uma tradição de construção de planetários em Rodes.
Reavaliação e a persistência do enigma
Pouco antes de sua morte, Derek Price notou com tristeza que o mecanismo de Anticitera teria afundado duas vezes: a primeira há dois mil anos, e então depois da publicação de seu trabalho final em 1975. O mundo acadêmico deu pouca atenção ao tema, a despeito da importância seminal do artefato evidenciada por ele.

De forma irônica, felizmente estudos recentes e idéias novas vêm sendo propostas, mas ainda que sempre reconheçam a relevância do trabalho de Price, começam justamente por reavaliá-lo.

A reconstrução conjetural de Price não dá função para algumas engrenagens, e a estimativa de dentes para diversas peças é feita para se ajustar à pré-concepção de que o mecanismo representava os movimentos do Sol e da Lua, com um diferencial. Uma das maiores engrenagens do mecanismo não encontra muito uso.

Alterando tais estimativas, é possível propor reconstruções capazes de exibir os movimentos do Sol, Lua e alguns outros planetas dos cinco conhecidos pelos gregos antigos. Especula-se que o planetário descrito por Cícero, e criado por Posseidônio, poderia ser o próprio mecanismo de Anticitera. E, por fim, o próprio diferencial é colocado em questão.

Todos esses estudos dependem agora de novas radiografias do mecanismo com tecnologias de última geração para seguirem adiante e quem sabe revisar de forma profunda o trabalho pioneiro de Derek Price. O mecanismo de Anticitera pode ter sido parte de um sistema maior, capaz de exibir os movimentos de todos corpos celestes. Sua função pode ter sido mais astrológica que astronômica – o que não seria surpresa ou um grande dissabor para os cientistas, uma vez que as origens da astronomia estão inegavelmente nas superstições da astrologia.

O que sabemos com razoável certeza é que o mecanismo de Anticitera continua um artefato singular para a história da ciência e tecnologia, com complexidade notável em pelo menos trinta engrenagens dispostas de forma cuidadosa em uma pequena caixa, com mostradores graduados de forma comparável a um relógio científico moderno.

Em seu artigo para a Scientific American, Price termina escrevendo que é um pouco assustador saber que pouco antes do declínio de sua grande civilização os gregos antigos chegaram tão perto de nossa era, não só em sua ciência, como em sua tecnologia. Isto não só permanece motivo de preocupação frente ao futuro de nossa civilização, como ainda é um verdadeiro enigma.

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Agradecimentos
Com agradecimentos aos doutores Mike Edmunds e Rob Rice pelo gentil envio de material relevante ao artigo

Saiba mais
Pesquisas recentes no mecanismo estão sendo realizadas por Tony Freeth, Allan Bromley, Mike Edmunds e Phil Morgan, entre outros. Papers de Freeth para o MAA podem ser lidos em:
http://www.rhodes.aegean.gr/maa_journal/
Uma instrutiva simulação em Java da reconstrução de Price pode ser conferida em:
http://www.mathlab.sunysb.edu/~tony/whatsnew/column/antikytheraI-0400/kyth5.html

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Randolph e a Mestra Blavastky

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O grande publicista teosofo Mario Roso de Luna prestou relevante serviço, reunindo num interessante livro, vários traços biográficos da Sra. Blavastky, trabalho em que, a par de dados curiosos, narra os sucessos mais notáveis da vida exemplar e torturada da Mestra.


Desconhecendo os seus últimos escritos, não sei se ofereço, como novo, um fato já relatado, embora, nenhuma inconveniência decorra desta repetição.


Colhi-o em notas tomadas por Franz Hartmann, que conviveu com a Mestra e partilhou de vários acontecimentos de sua vida, notas autenticas e devidas ao conhecimento intimo e amizade que me uniu ao eminente autor de MAGIA BRANCA E NEGRA.


Eis o fato:
Em meados do século passado, XIX, viveu nos Estados Unidos, um homem extraordinário , ocultista de estranhas capacidades, a quem atribuíam conhecimentos invulgares de maravilhosa e desconhecida ciência. Entre os seus ascendentes contavam-se armênios, indianos, egípcios, africanos e germanos. Esta mistura impossível e indefinida davam ao herói da nossa narrativa uma fisionomia surpreendente. Randolph, como se assinava , era uma espécie de Cagliostro que instalara seu consultório, na cidade de Boston, onde exercia a profissão de clarividente e conquistou notoriedade extraordinária, em virtude do acerto dos seus prognósticos. Tornou-se tão famoso que o seu nome chegou aos ouvidos de Napoleão III, que o chamou á Paris,
garantindo-lhe valiosa contribuição. Na capital francesa, guiou, de fato, Napoleão, em suas deliberações de Estado, e féz-se discípulo de Eliphas Levi, o Mestre de Papus e, espiritualmente, meu antecessor.


Antes disto, visitou, em Nova York, a Sra. Blavastky, com quem travou relações, que foram, mais tarde, a base da estreita amizade que os ligou. Contudo, as pessoas, intimamente ligadas com a mestra, ignoravam, porque esta não o queria receber em casa, preferindo encontra-lo no meio da rua. Ninguém sabe o que descobrira na alma de Randolph. O certo é que acabou se afastando dele, procurando mesmo evitar o mago, a quem, como se dizia, dispensara uma amável fraternidade.


Na Índia, já havia sucedido a Sra. Blavatsky um fato bem curioso. No momento de tomar, certa tarde, levantou-se precipitadamente, gritando: Que quer esse negro malvado?!


Contam, também, que, nos Estados Unidos, a Mestra, evitando a curiosidade de seus íntimos, realizava entrevistas com o mago... Assim que chegava, á residência, encerrava-se, em seu quarto e tomava notas. Que escreveria a Mestra?


Hartmann refere que as faculdades de Randolph eram, efetivamente, extraordinárias e sua clarividência superior a da Sra. Blavastky e de todos os iniciados da época, considerando-o um fenômeno dentro da Magia.


Conhecia todos os segredos iniciáticos dos Rosa-Cruz, mas nunca fora iniciado. Quando he perguntava onde bebera tão prodigiosos conhecimentos encolhia os ombros e dava uma formidável gargalhada...


Dizem que bastava se concentrar por alguns momentos para falar qualquer idioma, por mais desconhecido. A Sra.Blavastky, quando pretendia resolver qualquer problema mais intricado, a despeito da sua repugnância, recorria a Randolph...


Um senhor, que assistia certa noite, uma representação teatral, em New York, em companhia do mago, perguntou-lhe: É verdade que você pode chamar, mentalmente, qualquer pessoa, sem que ela possa desobedece-lo? Experimente, disse Randolph, e mandou que, ad libitum, escolhesse alguém na platéia. O amigo percorreu com a vista a multidão que enchia o teatro e disse: Aquela loura que esta sentada ao lado da pilastra.


Sim, respondeu Randolph; espere um instante...
O mago fechou os olhos, durante alguns segundos, enquanto o companheiro observava a pessoa indicada.


A pobre moça, como se tivesse recebido um estranho choque, estremece, levanta-se e dirige para o lugar em que estava Randolph.
Por Deus, brada o amigo. Tire-lhe o encanto e deixe-a livre! Você tem um poder fora do comum e é um perigo!


Em resposta a estas insinuações Randolph limitava-se a encolher os ombros e dar a sua habitual gargalhada...


Todos os amigos da Sra. Blavastky consideravam Randolph um verdadeiro enigma. Ela mesma evitava aludir á sua esposa... O caso, porem , do chá , a que já me referi em Adyar teve sua repercussão nos meios teosóficos.


Fazia um intenso calor e a conversa girava sobre assuntos triviais. Um pouco de preguiça e lassidão pairava no ambiente e tudo acussava essa calma característica das horas estivais. De repente a Sra. Blavastky tornou-s e pálida. ”MALDITO NEGRO, exclama com todas as forças dos seus pulmões.”QUER MATAR-ME COM UM REVOLVER!”“


Segue-se um instante de silencio e de inquietação por parte de todos os presentes... A Mestra dá um profundo suspiro e articula: “Já levou o diabo!” ....


“Todos os assistentes, então, pressurosos, indagam do que se passara e a Mestra explica:” Imaginem que esse maldito negro do Randolph quis matar-me a distancia, pretendendo desmaterializar a bala e materializa-la ao penetrar no meu corpo. Como não logrou o seu intento, voltou a arma contra si e suicidou-se. Perdeu a razão... “É o que sucede, geralmente, aos que se apartam do verdadeiro caminho.”


Mais tarde, soube-se, pela própria viúva, que o fato ocorrido com a mestra, em Adyar, correspondia, exatamente, a experiência posta em pratica, nesse momento, pelo ocultista, então, na América. Ele, com efeito, dispara o seu revolver, visando um alvo imaginário, mas a bala, em vez de seguir a trajetória natural, voltou e o atingiu, matando-o.


Se com estas anotações contribui para enriquecer os traços biográficos da Sra. Blavastky, sentir-me-ei satisfeito. […]


R.+ HUIRACOCHA


REVISTA GNOSE


ANNO II – RIO DE JANEIRO, 27 DE MAIO DE 1937 –N°10.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PSICOLOGIA DA EVOLUÇÃO POSSÍVEL AO HOMEM

 

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O  trecho abaixo é do livro  PSICOLOGIA DA EVOLUÇÃO POSSÍVEL AO HOMEM, do psicólogo e filósofo russo P. D. Ouspensky.

 


“O que é a consciência? Na linguagem comum, a palavra “consciência” é quase sempre empregada como equivalente da palavra “inteligência”, no sentido de atividade mental.

 


Na realidade, a consciência no homem é uma espécie muito particular de “tomada de conhecimento de si mesmo”, conhecimento de  quem ele é, de onde está e, a seguir, conhecimento do que sabe, do que não sabe, e assim por diante.

 


Só a própria pessoa é capaz de saber se está consciente ou não em dado momento. Certa corrente de pensamento dá psico­logia européia provou, aliás, há muito tempo, que só o próprio homem pode conhecer certas coisas sobre si mesmo. Só o próprio homem, pois, é capaz de saber se a sua consciência existe ou não, em dado momento. Assim, a presença ou a ausência de consciência no homem não pode ser provada pela observacão de seus atos exteriores. Como acabo de dizer, esse fato foi estabelecido há muito, mas nunca se compreendeu real­mente sua importância, porque essa idéia sempre esteve ligada a uma compreensão da consciência como atividade ou processo mental.

 


O homem pode dar-se conta, por um instante, de que, antes desse mesmo instante, não estava consciente; depois, esquecerá essa experiência e, ainda que a recorde, isso não será a consciência. Será apenas a lembrança de uma forte experiência.

 


Quero, agora, chamar-lhes a atenção para outro fato per­dido de vista por todas as escolas modernas de psicologia.

 


É o fato de que a consciência no homem jamais é permanente, seja qual for o modo como é encarada. Ela está presente ou está ausente. Os momentos de consciência mais elevados criam a memória. Os outros momentos, o homem simplesmente os esquece. É justamente isso que lhe dá, mais que qualquer outra coisa, a ilusão de consciência contínua ou de “percepção de si” contínua.

 


Algumas modernas escolas de psicologia negam inteira­mente a consciência, negam até a utilidade de tal termo; isso, porém, não passa de paroxismo de incompreensão. Outras escolas, se é possível chamá-las assim, falam de “estados de consciência”, quando se referem a pensamentos, senti­mentos, impulsos motores e sensações. Tudo isso tem como base o erro fundamental de se confundir consciência com funções psíquicas.

 


Na realidade, o pensamento moderno, na maioria dos casos, continua a crer que a consciência não possui graus. A aceitação geral, ainda que tácita, dessa idéia, embora em contradição com numerosas descobertas recentes, tornou impossível muitas observações sobre as variações da consciência. O fato é que a consciência tem graus bem visíveis e observáveis, em todo caso visíveis e observáveis por cada um em si mesmo.

 


Primeiro, há o critério da duração: quanto tempo se permanece ­consciente?

 


Segundo, o da freqüência: quantas vezes se tornou consciente?
Terceiro, o da amplitude e da penetração: do que se estava consciente? Pois isso pode variar muito com o crescimento inte­rior do homem.

 


Se considerarmos apenas os dois primeiros desses três pon­tos, poderemos compreender a idéia de uma evolução possível da consciência. Essa idéia está ligada a um fato essencial, perfeitamente conhecido pelas antigas escolas psicológicas, tais como a dos autores da Philokalia, porém completamente ignorado pela filosofia e pela psicologia européias dos dois ou três últimos séculos.
É fato que por meio de esforços especiais e de um estudo especial a pessoa pode tornar a consciência contínua e controlável.

 


Tentarei explicar como a consciência pode ser estudada. Tome um relógio e olhe o ponteiro grande, tentando manter a percepção de si mesmo e concentrar-se no pensamento “eu sou Pedro Ouspensky”, por exemplo, “eu estou aqui neste momen­to”. Tente pensar apenas nisso, siga simplesmente o movimento do ponteiro grande, permanecendo consciente de si mesmo, de seu nome, de sua existência e do lugar em que você está. Afaste qualquer outro pensamento.

 


Se for perseverante, poderá fazer isso durante dois minutos. Tal é o limite da sua consciência. E se tentar repetir a experiên­cia logo a seguir, irá achá-la mais difícil que da primeira vez.

 


Essa experiência mostra que um homem em seu estado normal pode, mediante grande esforço, ser consciente de uma coisa (ele mesmo) no máximo durante dois minutos. A dedução mais importante que se pode tirar dessa expe­riência, se realizada corretamente, é que o homem não é consciente de si mesmo. Sua ilusão de ser consciente de si mesmo é criada pela memória e pelos processos do pensamento.
Por exemplo, um homem vai ao teatro. Se tem esse hábito, não tem consciência especial de estar ali enquanto ali está. E, não obstante, pode ver e observar; o espetáculo pode interessá-lo ou aborrecer-lhe; pode lembrar-se do espetáculo, lembrar-se das pessoas com quem se encontrou, e assim por diante. De volta à casa, lembra-se de haver estado no teatro e, naturalmente, pensa ter estado consciente enquanto lá se encontrava. De forma que não tem dúvida alguma quanto à sua cons­ciência e não se dá conta que sua consciência pode estar totalmente   ausente mesmo quando ele ainda age de modo razoável, pensa observa.

 


De maneira geral, o homem pode conhecer quatro estados de  consciência, que são: o sono, o estado de vigília, a consciência de si e a consciência objetiva.

 


Mesmo tendo a possibilidade de conhecer esses quatro esta­dos de consciência, o homem só vive, de fato, em dois desses estados: uma parte da sua vida transcorre no sono e a outra, só que se chama de “estado de vigília”, embora, na realidade, esse último difira muito pouco do sono.

 


Na vida comum o homem nada sabe da “consciência objetiva” e não pode ter nenhuma experiência dessa ordem. O homem se atribui o terceiro estado de consciência, ou “consciência de si e crê possuí-lo, embora na realidade, só seja consciente de si mesmo por lampejos, aliás muito raros; e, mesmo nesses momentos, é pouco provável que reconheça esse estado, dado que ignora o que implicaria o fato de realmente possuí-lo.

 


Esses vislumbres de consciência ocorrem em momentos excepcionais, em momentos de perigo, em estados de intensa emoção, em circunstâncias e situações novas e inesperadas, ou também, às vezes, em momentos  bem simples onde nada de particular ocorre. Em seu estado ordinário ou “normal”, porém, o homem não tem qualquer controle sobre tais momentos de consciência.

 


Quanto à nossa memória ordinária ou aos nossos momentos de memória, na realidade, nós só nos recordamos de nossos momentos de consciência, embora não saibamos que isso é assim.

 


O que significa a memória no sentido técnico da palavra ?  Notarão que não se recordam das coisas  sempre da mesma maneira. Algumas coisas são recordadas de forma muito viva, outras permanecem vagas e existem aquelas de que não se recordam em absoluto. Sabem apenas que aconteceram.

 


Ficarão muito surpresos quando constatarem como se re­cordam de pouca coisa, E é assim, porque só se recordam dos momentos em que estiveram conscientes.

 


Assim, para voltar a esse terceiro estado de consciência, podemos dizer que o homem tem momentos fortuitos de consciência de si, que deixam viva lembrança das circunstâncias que eles ocorreram. O homem, entretanto, não tem nenhum poder sobre tais momentos. Aparecem e desaparecem por si mesmos, sob a ação de condições exteriores, de associações aci­dentais ou de lembranças de emoções.
Surge esta pergunta: é possível adquirir á domínio desses momentos fugazes de consciência, evocá-los mais freqüentemente, mantê-los por mais tempo ou, até, torná-los permanentes?

 


Em outros termos, é possível tornar-se consciente? Esse é o ponto essencial e é preciso compreender, desde o inicio do nosso estudo, que esse ponto escapou completamente, até em teoria, a todas as escolas modernas de psicologia, sem exceção.

 


De fato, por meio de métodos adequados e esforços apro­priados, o homem pode adquirir o controle da consciência, pode tornar-se consciente de si mesmo, com tudo o que isso implica. Entretanto, o que isso implica não podemos sequer imaginá-lo em nosso estado atual. Só depois de bem compreendido esse ponto, é possível empreender um estudo sério da psicologia.”