domingo, 11 de setembro de 2011

À Procura de Iranon (H.P. Lovecraft)

Sem título

Para a cidade de granito de Teloth perambulou o jovem com uma grinalda de folhas de parreira sobre o cabelo louro reluzente de mirra, o manto púrpura rasgado pelos espinheiros do monte Sidrak, que se ergue do outro lado da antiga ponte de pedra. Os homens de Teloth são rudes e sombrios, e moram em casas quadradas. Com semblantes carrancudos perguntaram ao estrangeiro de onde ele vinha e qual era seu nome e fortuna. E o jovem respondeu:

"Sou Iranon e venho de Aira, uma cidade distante da qual só me lembro vagamente mas que procuro reencontrar. Sou um cantor das canções que aprendi na cidade distante e meu oficio é fazer beleza com as coisas relembradas da infância. Minha riqueza está em pequenas lembranças e sonhos, e nas esperanças que canto nos jardins quando a lua é doce e o vento oeste agita as flores de lótus".

Quando os homens de Teloth ouviram essas coisas, murmuraram entre si; pois, embora na cidade de granito não haja risos nem canções, os homens rudes às vezes olham para os montes Karthianos, na primavera, e pensam nos alaúdes da distante Oonai mencionada pelos viajantes. E, assim pensando, pediram ao estrangeiro que ficasse e cantasse na praça diante da Torre de Mím, embora não gostassem da cor de seu manto esfarrapado, nem da mirra em seu cabelo, nem de sua grinalda de folhas de videira, nem da juventude de sua voz dourada. Ao anoitecer, Iranon cantou, e enquanto cantava um velho orava e um cego afirmou enxergar uma auréola sobre a cabeça do cantor. Mas a maioria dos homens de Teloth bocejou, e alguns riram, e alguns caíram no sono, pois Iranon não dizia nada de útil, cantando somente suas lembranças, seus sonhos e suas esperanças. "Lembro-me do crepúsculo, da lua e das doces canções, e da janela onde era embalado para dormir. E além da janela havia a rua de onde vinham as luzes douradas e as sombras dançavam sobre casas de mármore. Recordo o quadrado de luar do chão, que nenhuma outra luz igualava, e as visões que dançavam nos raios lunares quando minha mãe cantava para mim. E recordo também o sol da manhã brilhando sobre as multicoloridas colinas no verão, e a doçura das flores carregadas pelo vento sul que fazia as árvores cantarem." "Ó Aira, cidade de mármore e berilo, quantas não são tuas belezas! Quanto eu amava os cálidos e fragrantes bosques além do hialino Nithra, e as quedas do minúsculo Kra, que corria pelo vale verdejante! Naqueles bosques e naquele vale, as crianças trançavam grinaldas umas para as outras e, ao crepúsculo, eu sonhava estranhos sonhos sob as árvores yaths na montanha enquanto via, abaixo de mim, as luzes da cidade e o sinuoso Nithra refletindo um cinturão de estrelas." "E na cidade havia palácios de mármore raiado e matizado com cúpulas douradas e paredes ornamentadas, e verdes jardins com tanques cerúleos e fontes cristalinas. Muitas vezes brinquei nos jardins, e entrei nos tanques, e me deitei e sonhei entre as pálidas flores debaixo das árvores. E às vezes, ao pôr-do-sol, eu subia pela longa e íngreme rua até a cidadela e a praça aberta, e olhava para baixo, para Aira, a cidade mágica de mármore e berilo, esplêndida em seu manto de chama dourada." "Há muito eu te perdi, ó Aira, pois era muito jovem quando parti para o exílio, mas meu pai era o Rei e eu voltarei para ti, pois assim quer o Destino. E por sete terras eu te busquei, e algum dia reinarei sobre teus bosques e jardins, tuas ruas e palácios, e cantarei para homens que saberão do que eu canto, e não rirão, nem se afastarão. Pois eu sou Iranon, que foi um Príncipe em Aira." Naquela noite, os homens de Teloth alojaram o estrangeiro num estábulo e, pela manhã, um arconte foi ter com ele dizendo-lhe para ir à oficina de Athok, o sapateiro, e tornar-se seu aprendiz. "Mas eu sou Iranon, um cantor de canções", disse ele, "e não tenho vocação para o oficio de sapateiro." "Todos em Teloth devem trabalhar arduamente", replicou o arconte, "pois esta é a lei." Então disse Iranon: "Por que motivo trabalhais arduamente? Não deveis viver e ser felizes? E se trabalhais arduamente apenas para poder trabalhar ainda mais, quando a felicidade vos encontrará? Trabalhais para viver, mas a vida não é feita de beleza e canção? E se não tiverdes cantores entre vós, para onde irão os frutos de vosso trabalho? A lida sem canção é como uma jornada estafante sem um fim. A morte não seria mais agradável?" Mas o arconte se aborreceu e não entendeu, e reprovou o estranho. "És um jovem estranho e não gosto de teu rosto, nem de tua voz. As palavras que falas são blasfêmia, pois disseram os deuses de Teloth que o trabalho árduo é bom. Nossos deuses nos prometeram um paraíso de luz além da morte onde repousaremos eternamente, e a frialdade de cristal em meio à qual ninguém perturbará nossa mente com pensamentos ou nossos olhos com beleza. Vai, pois, até Athok, o sapateiro, ou parte da cidade ao entardecer. Todos aqui devem servir, e cantar é insensatez." Iranon abandonou então o estábulo e caminhou pelas estreitas ruas de pedra entre as sombrias casas quadradas de granito, procurando algum verde, pois tudo ali era de pedra. Os homens traziam as testas franzidas, mas no dique de pedra que margeava o preguiçoso rio Zuro havia um garoto sentado escrutinando com olhos tristes as águas por trás de verdes ramos floridos trazidos dos morros pelas cheias. E o garoto lhe disse: Não és aquele de quem os arcontes falam, aquele que procura uma cidade distante numa bela região? Sou Romnod, nascido do sangue de Teloth, mas não sou um velho calejado nos modos da cidade de granito e anseio diariamente pelos cálidos bosques e as terras distantes de beleza e canção. Além dos montes Karthianos fica Oonai, a cidade dos alaúdes e das danças da qual os homens murmuram dizendo que é igualmente adorável e terrível. Ali eu iria se fosse suficientemente velho para encontrar o caminho, e ali deverias ir e cantar, e terias pessoas para te escutar. Deixemos a cidade de Teloth e viajemos juntos entre os montes primaveris. Tu me mostrarás os caminhos da viagem e eu ouvirei tuas canções ao entardecer, quando as estrelas, uma a uma, trazem sonhos às mentes dos sonhadores. E pode mesmo acontecer que Oonai, a cidade dos alaúdes e das danças, seja a mesma bela Aira que tu procuras, pois conta-se que não encontraste Aira desde os velhos tempos, e os nomes freqüentemente mudam. Vamos para Oonai, ó Iranon de cabeça dourada, onde os homens conhecerão nossos anseios e nos receberão como irmãos, e também não rirão nem franzirão as testas com o que dissermos". E Iranon respondeu: "Assim seja, pequeno. Se alguém neste lugar de pedra anseia por beleza, deve buscar as montanhas e ir além delas, e eu não te deixaria a definhar ao lado do preguiçoso Zuro. Mas não penses que o deleite e o entendimento grassam logo depois dos montes Karthianos, ou em qualquer lugar que possas encontrar numa jornada de um dia, ou um ano, ou um lustro. Olha, quando eu era pequeno como tu, morava no vale de Narthos, à beira do frígido Xari, onde ninguém se importava com meus sonhos, e disse para mim que, quando fosse mais velho, iria para Sinara na encosta meridional, e cantaria para sorridentes cameleiros na praça do mercado. Mas quando fui a Sinara, encontrei os cameleiros todos bêbados e dissolutos, e percebi que suas canções não eram como as minhas, por isso viajei numa chata, descendo o Xari até a Jaren das muralhas de ônix. E os soldados de Jaren riram de mim e me expulsaram, por isso saí perambulando por muitas outras cidades. Conheci Stethelos, abaixo da grande catarata, e vi o pântano onde um dia existiu Sarnath. Estive em Thraa, Ilarnek e Kadatheron às margens do sinuoso rio Ai, e habitei muito tempo Olathoe, na terra de Lomar. Mas, embora encontrasse ouvintes ocasionais, eles sempre foram muito poucos, e sei que só serei bem recebido em Aira, a cidade de mármore e berilo onde meu pai uma vez governou como Rei. Assim, pois, buscaremos Aira, embora fosse bom visitar até a distante Oonai, abençoada pelos alaúdes, além dos montes Karthianos, que pode de fato ser Aira, muito embora eu não o creia. A beleza de Aira supera a imaginação e ninguém consegue se pronunciar sobre ela sem arrebatamento, enquanto de Oonai os cameleiros sussurram furtivamente."

O sol se punha, quando Iranon e o pequeno Romnod partiram de Teloth, e durante muito tempo perambularam pelos verdes montes e as frias florestas. O caminho era acidentado e escuro, e eles pareciam nunca se aproximar de Oonai, a cidade de alaúdes e danças, mas quando chegava o crepúsculo e as estrelas surgiam, Iranon cantava sobre Aira e suas belezas, e Romnod escutava, e isso os deixava, até certo ponto, contentes. Comiam regaladamente frutas e bagas vermelhas, e não sentiam o tempo passar, mas muitos anos devem ter transcorrido. O pequeno Romnod já não era tão pequeno e já não tinha a voz esganiçada e sim grave, embora Iranon fosse sempre o mesmo e continuasse enfeitando seus cabelos dourados com folhas de parreira e resinas fragrantes encontradas nos bosques. Assim, deu-se um dia em que Romnod pareceu estar mais velho que Iranon, embora fosse muito pequeno quando Iranon o encontrara espreitando por verdes ramos floridos em Teloth, ao lado do preguiçoso Zuro margeado de pedra. Era uma noite de lua cheia quando os viajantes atingiram o cume de uma montanha e, olhando para baixo, avistaram as miríades de luzes de Oonai. Camponeses lhes haviam dito que estavam perto e Iranon percebeu que aquela não era sua cidade nativa de Aira. As luzes de Oonai não eram como as luzes de Aira, pois eram fortes e ofuscantes, enquanto as luzes de Aira brilhavam com tanta suavidade e magia quanto o luar sobre o chão ao lado da janela onde a mãe de Iranon um dia o acalentara com canções. Mas Oonai era uma cidade de alaúdes e danças, por isso Iranon e Romnod desceram a íngreme encosta para encontrar pessoas a quem canções e sonhos pudessem agradar. E, quando entraram na cidade, encontraram foliões com grinaldas de rosas saltitando de casa em casa e se inclinando de janelas e sacadas que ouviam as canções de Iranon e atiravam-lhe flores e o aplaudiam quando terminava. Então, por um momento, Iranon acreditou ter encontrado os que pensavam e sentiam como ele, embora a cidade não tivesse um centésimo da beleza de Aira. Ao chegar a aurora, Iranon olhou em torno desalentado, pois as cúpulas de Oonai não eram douradas sob o sol, mas cinzentas e sombrias. E os homens de Oonai estavam pálidos das folias e entorpecidos pelo vinho, e eram diferentes dos radiantes homens de Aira. Mas como as pessoas tinham atirado flores sobre ele e aclamado suas canções, Iranon ficou, e com ele Romnod, que gostava das folias da cidade e trazia rosas e mirto em seus negros cabelos. Muitas vezes, à noite, Iranon cantava para os foliões, mas estava sempre como antes, coroado apenas com as vinhas das montanhas e recordando as ruas de mármore de Aira e o hialino Nithra. Nos salões cobertos de afrescos do Monarca ele cantou sobre uma plataforma de cristal elevada sobre um piso espelhado, e ao cantar trazia imagens para seus ouvintes até o piso parecer refletir coisas antigas, belas e meio lembradas em vez dos foliões avermelhados pelo vinho que o bombardeavam com rosas. E o Rei pediu-lhe que tirasse seu esfarrapado manto púrpura e vestiu-o de cetim com brocados de ouro, com anéis de jade verde e braceletes de tinto marfim, e alojou-o num quarto dourado e forrado de tapeçarias com uma cama de madeira delicadamente entalhada, com dosséis e colchas de seda com bordados florais. Assim viveu Iranon em Oonai, a cidade dos alaúdes e das danças. Não se sabe quanto tempo Iranon permaneceu em Oonai, mas certo dia o Rei trouxe para o palácio alguns dançarmos frenéticos do deserto liraniano e trigueiros flautistas de Drinen, no Leste, e a partir de então os foliões atiraram suas rosas não tanto em Iranon, mas sobretudo nos dançarinos e flautistas. E, dia após dia, aquele Romnod que havia sido um garoto na granítica Teloth foi se tornando mais rude e avermelhado pelo vinho, até que passou a sonhar cada vez menos e a ouvir com menos deleite as canções de Iranon. Mas, embora estivesse triste, Iranon não deixava de cantar, e à noite recontava sempre seus sonhos de Aira, a cidade de mármore e berilo. Então, certa noite em que roncava pesadamente recostado entre as sedas narcóticas de seu leito, Romnod, gordo e rubicundo, faleceu em meio a uma convulsão, enquanto Iranon, pálido e esbelto, cantava para si mesmo num canto distante. Depois de prantear sobre o túmulo de Romnod e o forrar com verdes ramos floridos como os que Romnod costumava amar, Iranon despiu suas sedas e adornos e partiu, esquecido, de Oonai, a cidade de alaúdes e danças, trajando apenas o esfarrapado manto púrpura com que chegara, coroado com uma grinalda de frescas folhas de parreira das montanhas. Ao entardecer, errava ainda Iranon, procurando sua terra nativa e os homens que compreenderiam e louvariam seus sonhos e canções. Em todas as cidades de Cydathria e nas terras além do deserto de Bnazie, crianças risonhas riam de suas velhas canções e de seu esfarrapado manto púrpura, mas Iranon permanecia jovem e trazia grinaldas sobre sua cabeça dourada enquanto cantava sobre Aira, deleite do passado e esperança do porvir. Assim foi que chegou, certa noite, ao esquálido casebre de um velho pastor, encurvado e sujo, que apascentava rebanhos numa encosta empedrada que subia de um pântano de areias movediças. Para esse homem, falou Iranon, como para tantos outros havia falado: "Podeis me dizer onde poderei encontrar Aira, a cidade de mármore e berilo, onde corre o hialino Nithra, e onde as quedas do minúsculo Kra cantam para vales verdejantes e colinas cobertas de pés de yath?" E o pastor, ouvindo, olhou demorada e atentamente para Iranon, como que recordando algo muito distante no tempo, e observou cada linha do rosto do estranho, e seu cabelo dourado, e sua coroa de folhas de videira. Mas ele era velho e abanou a cabeça enquanto respondia: "Ó estrangeiro, ouvi de fato o nome de Aira, e os outros nomes de que falaste, mas eles me vêm de muito longe, da profundeza de longos anos. Ouvi-os em minha juventude dos lábios de um companheiro de folguedos, o filho de um mendigo dado a estranhos sonhos que tecia longas narrativas sobre a lua e as flores e o vento oeste. Costumávamos rir dele, pois o conhecíamos desde seu nascimento, embora pensasse ser filho de um Rei. Era gracioso, como tu, mas cheio de disparates e estranheza; e fugiu quando era pequeno para encontrar os que ouviriam com deleite seus sonhos e canções. Quantas vezes não cantou ele para mim sobre terras que nunca existiram e coisas que nunca existirão! De Aira ele falava muito; de Aira e do rio Nithra, e das quedas do minúsculo Kra. Ele sempre dizia que ali vivera algum dia como um Príncipe, embora por aqui nós o conhecêssemos desde seu nascimento. Jamais existiu uma cidade de mármore de Aira, nem os que poderiam se deleitar com estranhas canções exceto nos sonhos de meu velho companheiro de folguedos Iranon, que partiu". E ali, ao crepúsculo, quando as estrelas saiam uma a uma e a lua lançava sobre o pântano uma radiância como a que uma criança vê estremecer no piso enquanto é ninado ao anoitecer, caminhou em direção à areia movediça letal um homem muito velho vestindo um esfarrapado manto púrpura, coroado com folhas ressecadas de videira e olhando para a frente como se estivesse vendo as cúpulas douradas de uma bela cidade onde os sonhos são compreendidos. Naquela noite, algo de juventude e beleza morreu no velho mundo.

Um comentário:

  1. Boa narrativa! O mundo se enaltece com a magia e apodrece com o ceticismo....

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