sábado, 30 de agosto de 2014

Naropa

 

 

tnk-narpa.jpg (89175 bytes)De acordo com sua biografia religiosa, Naropa era renomado como erudito e era amplamente reconhecido como uma pessoa que tinha se tornado, conceitualmente, mestre nos ensinamentos dos sutras, tantras e vinaya. Ele eventualmente subiu à posição de abade do monastério Nalanda, o maior local de aprendizado no mundo budista daquela época, o que indica que Naropa era um dos maiores eruditos de seu tempo. Seu desempenho filosófico e sua proeza nos debates eram tão grandes que ninguém podia excedê-lo em conhecimento sobre as escrituras budistas, e ele vencia todos os que ousavam debater com ele. Porém, apesar de seu grande aprendizado e prestígio, ele ainda não tinha penetrado no significado dos ensinamentos, e um dia isso foi apontado a ele por uma velha mulher, horrivelmente feia.

As horríveis características físicas daquela mulher — que era uma emanação de Vajrayogini — eram reflexos da própria mente de Naropa, cujo aprendizado e erudição o fizeram orgulhoso e arrogante.

A velha perguntou, "O que você está estudando? O que você está lendo?"

E Naropa respondeu, "Estou estudando o Guhyasamaja Tantra".

"Você pode ler as palavras?"

"Sim", respondeu Naropa, e começou a recitar o texto. A mulher ficou muito feliz ao ouvir aquelas palavras e começou a dançar. Então, Naropa disse, "Não apenas posso ler as palavras, mas também posso compreendê-las."

Neste momento, a mulher parou de dançar e começou a chorar. Intrigado, Naropa perguntou, "Você estava tão alegre por eu poder ler, mas agora você ficou triste porque eu disse que podia compreender o significado. Por quê?"

"Estou triste porque você, um grande erudito, está mentindo. Isto é muito triste. Hoje, no mundo inteiro, ninguém além do meu irmão pode compreender o significado das palavras."

"Quem é o seu irmão?"

"Tilo Sherab Sangpo. É incerto o lugar onde ele está, mas se você quiser encontrar o meu irmão, eu vou ajudá-lo."

naropa2.jpg (8920 bytes)Ao ouvir o nome de Tilopa, Naropa sentiu grande devoção e decidiu partir. Deixando o monastério Nalanda, ele recebeu indicações de que deveria meditar sobre a divindade meditacional Chakrasamvara, e após meditar por seis meses, as dakinis disseram-lhe que deveria encontrar Tilopa no oeste. Naropa passou por grandes dificuldades e, ao chegar à região indicada, não tinha idéia de onde iria encontrar Tilopa. Ele perguntou às pessoas do local, mas ninguém sabia nada. Naropa insistiu, "Não há um grande yogi chamado Tilopa?"

E um pescador respondeu, "Bem, não sei nada a respeito de um grande yogi, mas há um homem chamado Tilopa, o Pária, ou o Mendigo, que mora perto do rio. É muito preguiçoso e vive apenas do que os pescadores jogam fora, como as cabeças e vísceras dos peixes." Naropa pensou, "As ações dos siddhas são incompreensíveis. Deve ser ele."

Quando ele foi até o lugar indicado, ele encontrou Tilopa sentado em frente a um tonel de madeira, cheio de peixes, alguns vivos, outros mortos. Tilopa pegou um peixe, grilhou-o sobre o fogo e o colocou na boca, estalando seus dedos. Naropa se prostrou diante dele e pediu para que o aceitasse como discípulo. "Do que você está falando?", respondeu Tilopa. "Sou apenas um mendigo!" Mas Naropa insistiu e depois de três dias foi aceito.

Tilopa não estava matando aqueles peixes por estar com fome e nada ter para comer. Ele tinha o poder de liberar os peixes, que são completamente ignorantes do que fazer ou não, criaturas com muitas ações negativas. Ao comer os peixes, ele estava fazendo uma ligação com suas consciências, e Tilopa podia transferi-las para um terra pura através da prática do P'howa (tib. 'Pho ba).

Por causa de seu apego aos conceitos, Naropa ainda não estava pronto para receber os ensinamentos, e assim Tilopa sujeitou-o a uma série de tarefas, a maioria das quais resultando em grande sofrimento. Uma vez, Tilopa levou Naropa ao topo de uma torre de nove andares e perguntou, "Há alguém que, para obedecer as ordens de seu mestre, possa pular daqui?"

Naropa pensou, "Não há mias ninguém aqui, devo ser eu." Ele pulou da torre e seu corpo se quebrou no chão, causando enorme dor e sofrimento. Tilopa desceu da torre e perguntou a ele, "Você está sentindo dor?"

"Não é apenas dor, não sou mais do que um cadáver...", suspirou Naropa. Mas Tilopa abençoou-o e seu corpo foi completamente curado. Então, Tilopa continuou a conduzir Naropa em sua jornada.

Em outro dia, Tilopa disse, "Naropa, estou com fome. Vá mendigar alguma comida para mim!" Então, Naropa foi a um lugar onde um grande número de lavradores estava comendo. Lá, ele conseguiu encher sua kapala (tib. thöp'hor / thod phor, pote de crânio) com sopa, e então retornou ao seu mestre.

Tilopa comeu a sopa com enorme apetite e parecia ter ficado muito contente. Naropa pensou, "Por todo tempo em que estive com o mestre, nunca o via tão feliz. Talvez se eu pedir novamente, eu consiga mais sopa." Ele pegou sua kapala vazia e voltou a mendigar, mas os lavradores já tinham voltado para os campos e deixado a sopa onde estava.

Naropa pensou, "A única coisa a fazer é roubá-la". Ele pegou a sopa e saiu correndo, mas os lavradores o pegaram e bateram nele, deixando-o quase morto. Ele ficou tão machucado que, por vários dias, não conseguiu nem se levantar. Novamente, seu mestre chegou, curou-o e voltaram para a estrada.

Em outro dia, Tilopa disse, "Naropa, preciso de muito dinheiro".

Então, Naropa foi tentar assaltar um homem muito rico, mas novamente foi pego e espancado à beira da morte. Depois de vários dias, Tilopa chegou e perguntou, "Você está sentindo dor?" Ele recebeu a mesma resposta anterior, abençoou Naropa e voltaram mais um vez à sua jornada.

Tilopa apontou que os problemas de Naropa surgiam de seu ainda poderoso apego ao pensamento conceitual. Naropa continuou a seguir suas ordens por 12 anos, passando por 12 provas maiores e outras 12 menores, até que fosse liberado do mais debilitante de seus falsos conceitos, purificando-os através de sua intensa e inabalável fé em seu mestre.

Finalmente, Tilopa disse, "Naropa, vá pegar água. Vou ficar aqui e fazer uma fogueira." Quando Naropa chegou com o pote de água, Tilopa saltou da fogueira que estava fazendo e segurou a cabeça dele com a mão esquerda. "Mostre-me sua testa", ordenou a Naropa.

Com a mão direita, Tilopa pegou sua sandália e bateu na testa de Naropa, que caiu inconsciente. Quando Naropa voltou a si, todas as qualidades da sabedoria de seu mestre tinham surgido em sua mente. Mestre e discípulo tornaram-se um em sua realização.

Os ensinamentos de Tilopa não foram longas discussões da doutrina ou instruções detalhadas para a prática. Ele apontou para o céu vazio e disse a Naropa, "Kyeho! Aqui está a sabedoria primordial da auto-consciência que transcende as palavras e objetos mentais. Eu, Tilo, nada tenho a mostrar. Apenas compreenda, observando a auto-consciência." Ouvindo estas palavras, a venda da ilusão foi tirada dos olhos de Naropa e ele foi capaz de compreender a natureza primordialmente pura da mente. Com isto, ele atingiu o estado iluminado de Vajradhara, que transcende completamente todo e qualquer conceito.

Os Quatro Maras

four guardian kings

Os 4 maras são forças obstrutoras e criadoras de obstáculos no caminho espiritual. São condicionamentos da mente destituídos de qualquer existência intrínseca e surgidos a partir da ignorância básica e auto-centramento. Há duas classificações dos 4 maras: uma de acordo com o sutrayana e uma de acordo com o tantrayana.

De acordo com o sutrayana:

1. O mara dos agregados (skhandamāra em sânscrito, tib. phung po’i bdud).
Representa nossa fixação a forma, sensações, cognições, marcas de hábito e estados mentais como reais, permanentes e existentes de forma independente.

2. O mara das emoções aflitivas (kleśamāra em sânscrito, tib. nyon mongs kyi bdud).
Representa o padrão habitual de nos relacionarmos com o mundo e com nós mesmos através das emoções aflitivas tais como o orgulho, inveja, aversão e raiva, desejo e apego, ignorância, aquisitividade e assim por diante.

3. O mara senhor da morte (mṛtyumāra em sânscrito, tib. ‘chi bdag gi bdud).
Representa a morte em si como também nosso medo da mudança, impermanência e da própria morte.

4. O mara dos filhos dos deuses (devaputramāra em sânscrito, tib. lha’i bu’i bdud).
Representa a avidez pelo prazer, conforto, paz e bem estar.

De acordo com o tantrayana:

1. O mara tangível (tib. thogs bcas kyi bdud).
Representa a atração ou aversão para com fenômenos físicos, objetos tangíveis, fundada na apreensão mental errônea das coisas como sendo reais per se.

2. O mara intangível (tib. thogs med kyi bdud).
Representa a atração e aversão para com fenômenos mentais, objetos intangíveis, fundada também na ignorância da dualidade que apreende e se fixa a separatividade entre sujeito e objeto.

3. O mara da exultação (tib. dga’ brod kyi bdud).
Representa a expressão externa de prazer baseada em um auto-centramento orgulhoso e fundado em um apego a reputação e a fama ordinárias que, por sua vez, distrai a mente de sua verdadeira natureza.

4. O mara da arrogância (tib. snyems byed kyi bdud).
Representa um tipo específico de orgulho, um considerar-se especial em relação aos demais, melhor que os outros, baseado no auto-centramento e no egoísmo ilusório. Esta apreensão a um ego é a fonte de todos os outros três maras como também de todas as confusões da existência cíclica. Quando não houver mais este ego auto-centrado baseado na ignorância com respeito a verdadeira natureza de si e das coisas, não haaverão mais maras, demônios obstaculazadores ou forças obstruturas.

Lama Jigme Lhawang
Porto Alegre, 7 de janeiro de 2014.

Retirado de: http://www.drukpabrasil.org/os-quatro-maras/

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pancha Makara

Comentando o Kaula Upanishad (texto em construção e sob atualizações periódicas)

Tentarei enfrentar com discernimento esta difícil tarefa de comentar sobre uma Upanishad que, em geral, são textos de elaborada complexidade filosófica. No caso do Kaula Upanishad acrescenta-se o fato dele ser um texto de uso ritualístico usado por uma tradição que historicamente manteve suas práticas distantes de olhares indiscretos.

Peço licença aos Sadhakas iniciados e a linhagem de todos os Gurus para comentar sobre este tema, não para revelar práticas reservadas aos iniciados que foram preparados para realizá-las mas sim para esclarecer um tema sujeito à muita desinformação e interpretações maliciosas que são divulgadas constantemente.

Como comentado, o Kaula Upanishad é um texto ritualístico, ou seja, destinado à ser usado em momentos específicos quando determinados rituais estão sendo realizados. Isto é uma injunção, uma regra ritual, comum à várias situações. Temos por exemplo os mil nomes de Vishnu (Vishnu Sahasranama) que é recitado nas cerimônias fúnebres (vide Garuda Purana), o Argala Stotra que é obrigatoriamente recitado antes da recitação do Chandi Path, o Linga Ashtakam durante o Abhisheka (banho ritual) feito ao Shiva Linga. Este tipo de injunção é comum desde o período Védiko onde o Punyaham Vachanam (declaração de méritos) era recitado no Upanayana Samskara, o rito de recebimento do cordão sagrado.

No caso do Kaula Upanishad o momento ritualístico adequado é durante a realização de um Chakra Puja, que é um procedimento reservado à Sadhakas iniciados e sujeito à várias injunções contrárias à presença de não-iniciados (vide Kularnava Tantra). È neste contexto esotérico que o texto se aplica e fora dele não há sentido algum, ou seja, ele NÃO é um texto para ditar normas de comportamento ou inspirar considerações filosóficas mas sim um texto auxiliar que é usado por alguns Kulas durante o Vandanam – o louvor às qualidades da tradição.

O texto começa com a saudação aos Sadhakas presentes e aos elementos usados no rito em questão:

शनः कौलिकः शनो वारुणी शनः शुद्धिः

शनोऽग्निश्शनः सर्वं समभवत्‌ । १।

śanaḥ kaulikaḥ śano vāruṇī śanaḥ śuddhiḥ

śano'agniśśanaḥ sarvaṁsamabhavat | 1 |

Palavras: śanaḥ - auspicioso ; kaulikaḥ- adepto iniciado no Kaula Tantra ; vāruṇī – epiteto para vinho ; śuddhiḥ - alimentos rituais ; agniḥ - fogo ; sarvaṁ - tudo ; samabhavat – esteja harmonico, pacificado.

Tradução: “Que os iniciados Kaula sejam auspiciosos (estejam em paz), que Varuni seja auspiciosa, que o Suddhi seja auspicioso, que o fogo seja auspicioso, que tudo seja harmônico.” Kaula Upanishad verso 1.

Comentário : Este primeiro verso começa com uma reverência aos Kaulas presentes no Chakra Puja seguida por uma reverência ao vinho e aos acompanhamentos ritualísticos e termina por uma saudação ao fogo do Homa que será realizado ao final. Aqui “Varuni” (esposa do Deus Varuna – Senhor das águas primordiais) é um epíteto carinhoso dado ao vinho e “Shuddhi”refere-se aos 3 Ms que devem ser consumidos no rito. Vale comentar que o inicio“śanaḥ kaulikaḥ śano vāruṇī” apresenta muita similaridade com o primeiro verso do Shanti Path (recitação da Paz) – “Oà çano mitraù çaà varuëaù ...”

नमो ब्रह्मणे नमः पृथिव्यै नमोऽद्भ्यो

नमोऽग्नये नमो वायवे नमो गुरुभ्यः।

namo brahmaṇe namaḥ pṛthivyai namo'dbhyo

namo'gnaye namo vāyave namo gurubhyaḥ |

Palavras:namaḥ - Reverências, saudação ; brahmaṇe –à Brahman ; pṛthivyai – à Prthivi, a Terra ; adbhyo – aos itens comestíveis ; agnaye - à Agni, o fogo ; vāyave - à Vayu, a atmosfera ; gurubhyaḥ- aos Gurus.

Tradução: “Saudação à Brahman, saudação à Terra, saudação aos itens rituais, saudação à chama espiritual, saudação à Vayu, saudação aos Gurus.”

Comentário : Este trecho começa com uma saudação à Brahman – o absoluto imanifesto. Segue com a saudação à Terra, que no rito é feita através da adoração à Adhara Shakti, à Kurma, à Ananta e à Prthivi. Então os Kula Dravyas são purificados e na seqüência a chama da lamparina (que têm um belo Mantra que a compara à luz espiritual - agniH jyothiH ...) e a atmosfera (antariksha) são adoradas e purificadas. Ao final todos os Gurus (Guru, ParamGuru ...) são reverenciados.

त्वमेव प्रत्यक्षं शैवासि।

त्वामेव प्रत्यक्षं तां वदिष्यामि।

tvameva pratyakṣaṁ śaivāsi |

tvāmeva pratyakṣaṁ tāṁ vadiṣyāmi |

Palavras:tvam – você ; eva – verdadeiramente, certamente ; pratyakṣaṁ - forma visível, manifesta ; śaiva – relativo ao Senhor Shiva ; asi – és ; tvām – de você ; tāṁ - d'Ela ; vadiṣyāmi – eu direi, eu falarei.

Tradução: “ Tu és verdadeiramente a forma manifesta do Senhor Shiva. Eu falarei de ti como certamente a manifestação d’Ela. “

Comentário : Aqui o texto identifica todo Sadhaka sentado em Chakra Puja como manifestação viva do Senhor Shiva e de Shakti, e, portanto, estabelece a indivisibilidade intrínseca entre os dois. O Kularnava Tantra reafirma este conceito e explica que a tradição é chamada de “Kaula” pois partilha práticas não-ortodoxas relacionadas à Shiva (Akula – “sem família”) com práticas ortodoxas relacionadas à manutenção da ordem social, estas ligadas à Shakti (Kula – ligada à familia).

ऋतं वदिष्यामि । सत्यं वदिष्यामि।

ṛtaṁ vadiṣyāmi | satyaṁ vadiṣyāmi |

Palavras:ṛtaṁ - sobre a virtude ; vadiṣyāmi– eu falarei ; satyaṁ - sobre a verdade.

Tradução: “ Eu falarei sobre a virtude, eu falarei sobre a verdade. ”

Comentário : ṛtaṁ, a personificação da Virtude no período Védico é evocada aqui. Seu papel na preservação do Universo é semelhante àquele desempenhado pelo Dharma – a ordem universal, que quando protegido preserva o mundo e quando abandonado deixa os seres à mercê da destruição. A verdade (Satya) é filha do Dharma. O MahaNirvana Tantra em seu capitulo IV faz um louvor à verdade e à sinceridade como únicas vias de realização espiritual neste Kali Yuga onde a dissimulação e a falsidade imperam. Onde há fingimento não há Siddhi.

तन्मामवतु । तद्वक्तारमवतु।

अवतु माम्‌ । अवतु वक्तारम्‌।

ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः।

tanmāmavatu | tadvaktāramavatu |

avatu mām | avatu vaktāram |

om śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ |

Palavras:tat – ele ; mām – à mim ; avatu –proteja ; vaktāram – ao orador, à aquele que fala .

Tradução: “ Que ele (Brahman) me proteja. Que proteja aquele que fala. Me proteja. Proteja aquele que fala. Que haja Paz, Paz, Paz. “

Comentário : Todo Upanishad se inicia com uma evocação à Paz que é recitada antes do texto. Aqui termina esta evocação do Kaula Upanishad e começa o texto propriamente dito.

अथातो धर्मजिज्ञासा । ज्ञानं बुद्धिश्च।

ज्ञानं मोक्शैककारणम्‌।

athāto dharmajijñāsā | jñānaṁ buddhiśca |

jñānaṁ mokśaikakāraṇam |

Palavras: athātaḥ - agora ; dharma– O Dharma, a virtude ; jijñāsā – prova, a certificação ; jñānaṁ- o conhecimento ; buddhiḥ- o discernimento ; ca – e ; mokśa – a libertação final ; eka – identico, o mesmo que ; kāraṇam– a causa primordial.

Tradução: “Agora a prova do Dharma. O discernimento é conhecimento. O conhecimento de que a Libertação Final é idêntica à Causa Primordial.“

Comentário: A realização interna do conhecimento de Brahman, ou seja, a identificação com a Causa primordial (Brahman) leva à Libertação Final. Bhaskararaya, o grande sábio Tântrico que comentou esta Upanishad, afirma que o conhecimento de Brahman surge através do poder da reflexão sobre o Dharma.

अज्ञानं ज्ञानम्‌।

ajñānaṁ jñānam |

Palavras: ajñānaṁ - o desconhecido, não-conhecimento, ignorância ; jñānam – conhecimento.

Tradução: “O desconhecido torna-se conhecimento.”

Comentário: O verbo implícito neste Sutra é “Bhu” –ser ou tornar-se. No Sânscrito a ausência de verbos na sentença implica na presença do verbo “Bhu”. Portanto o original em Sânscrito diz que aquilo que não é o conhecimento pode ser fonte do conhecimento. Aqui “ajñānaṁ” significa Prakrti – a natureza. Um trecho semelhante é encontrado no Devi Upanishad onde a Deusa afirma: “Eu sou a própria forma de Brahman, à partir de Mim surge a natureza (Prakrti), a alma individual e o Universo” (Devi Upanishad verso 2) complementado por “Eu sou o conhecimento e a falta de conhecimento” (verso 3).

एषः मोक्षः। पञ्च बन्धाः ज्ञानस्वरूपाः।

पिण्डाज्जननम्‌। तत्रैव मोक्षः। एतज्‌ज्ञानम्‌।

eṣaḥ mokṣaḥ| pañca bandhāḥ jñānasvarūpāḥ |

piṇḍājjananam | tatraiva mokṣaḥ | etajjñānam |

Palavras: eṣaḥ - isto ; mokṣaḥ - é libertação final ; pañca bandhāḥ - a corrente com cinco, o conjunto de cinco ; jñānasvarūpāḥ - as próprias formas do conhecimento ; piṇḍāt – à partir do Pinda, das oferendas comestíveis ; jananam - nascimento ; tatra– lá, sob aquelas circunstancias ; iva– semelhante à, tal qual ; etad– aqui, sob estas circunstancias ; jñānam– é conhecimento.

Tradução: “ Isto é Moksha, a libertação final. Os cinco itens rituais são a própria forma do conhecimento. Á partir das oferendas comestíveis há o nascimento. Naquelas circunstancias é como se fosse a libertação final, aqui é conhecimento. “

Comentário : Aqui temos uma explicação das condições de Moksha quando os Sadhakas estão sentados em Chakra Puja. Lá, num ambiente ritual, os cinco itens (Pancha Makara) são a própria forma do conhecimento que fazem de seus usuários os possuidores do conhecimento. Os itens comestíveis são comparados ao piṇḍa, a oferenda que é feita aos antepassados de forma à garantir-lhes bem aventurança nos mundos superiores e um futuro nascimento sob condições auspiciosas. Naquelas condições, ou seja, dentro do Chakra Puja todos estão libertos e trazem a libertação final à seus antepassados. Isto é o conhecimento, a ciência Tantrika.

अन्तः शाक्तः। बहिः शैवः।

लोके वैष्णवः। अयमेवाचारः।

antaḥ śāktaḥ | bahiḥ śaivaḥ |

loke vaiṣṇavaḥ | ayamevācāraḥ |

Palavras: antaḥ- interiormente, no coração ; śāktaḥ- um adorador da Deusa ; bahiḥ- na aparência ; śaivaḥ -um adorador do Senhor Shiva ; loke- no mundo ; vaiṣṇavaḥ - um adorador das várias formas de Vishnu ; ayam – este ; eva – verdadeiramente, certamente ; acāraḥ - caminho espiritual.

Tradução: “ No seu coração um adorador da Deusa, na aparência um Shaiva, no mundo um Vaishnava. Este certamente é o caminho espiritual.“

Comentário : O Kaula Dharma não é focado no proselitismo religioso, não há nele a ansiedade por inúmeras conversões. O mais importante é que os Sadhakas sejam “Adhikari”, ou seja, capacitados para suas disciplinas espirituais, o mais importante é o que está no coração do adepto. Sua aparência pode ser como à de um intenso buscador e, no mundo, ele pode apresentar-se como apenas um devoto tal qual aqueles que priorizam Bhakti, a devoção, em suas práticas. Muitas dos ritos Tantrikos são praticados solitariamente ou em pequenos grupos onde a dedicação dos presentes garante a manifestação de Shakti – o poder espiritual.

आत्मज्ञानान्मोक्शः।

ātmajñānānmokśaḥ |

Palavras: ātma – si-mesmo ; jñānām – o conhecimento ; mokśaḥ - a libertação final.

Tradução: “ O conhecimento de Si-mesmo é a libertação final. ”

Comentário: Muitos acreditam que seus apegos e aversões são a sua verdadeira essência, entretanto para o Tantra este é apenas um aspecto superficial que encobre a verdadeiro ser onde todo o poder, consciência e opulência habitam. Mergulhar as profundezas de seu próprio ser através das disciplinas Tantrikas é o caminho para esta descoberta.

लोकान्न निन्द्यात्‌। इत्यध्यात्मम्‌।

lokānna nindyāt | ityadhyātmam |

Palavras:lokān – os mundos ; na– não ; nindyāt – deveria censurar ou repreender ; iti – pois ;adhyātmam – o supremo espirito, Brahman.

Tradução: “ Não deveria censurar as coisas dos mundos pois (elas) são Brahman. ”

Comentário: Swami Satyananda define o caminho Kaula como: “comportamento de excelência - quando ao sentar-se tranquilo em meditação ou tentar ativamente alcançar algum objetivo, a atitude perante a vida continua a mesma em qualquer circunstância”,desta forma, o adepto Kaula deveria estar acima de seus apegos e aversões e contemplar as coisas do mundo sem almejar os frutos de suas ações.

व्रतं न चरेत्‌।

vrataṁ na caret |

Palavras: vrataṁ - Voto ou austeridade ; na – não ; caret – deveria seguir, sendo o modo Potencial do verbo “Car” – seguir, ir.

Tradução: “(Ele) não deveria seguir votos”.

Comentário: A frase “não siga votos” ou “austeridades”se refere à votos ou austeridades fartamente descritos nos Puranas onde há a obrigatoriedade do jejum. Estes votos são feitos no intuito de obter a realização de algum desejo e, portanto, implicam em apego às coisas deste mundo, o que não é apropriado àqueles que buscam Moksha – a libertação final. O jejum é explicitamente contra-indicado no MahaNirvana Tantra, especialmente aos Sadhakas envolvidos em adoração com Pancha Makara.

न तिष्ठेन्नियमेन।

na tiṣṭhenniyamena |

Palavras: na – não ; tiṣṭhet – deveria permanescer, sendo o Potencial do verbo “Stha” – permanescer ; niyamena– através dos Niyamas, em Niyamas.

Tradução: “(Ele) não deveria permanescer em Niyamas”

Comentário: Neste Sutra o significado mais apropriado seria “não permaneça em Niyamas”, disciplinas cujo item principal é “Saucha”, a limpeza física. Não falamos aqui sobre regras de higiene, que são sempre necessárias, mas sim de pureza ritual onde uma das observâncias é não pronunciar Mantras sem antes fazer a higienização da boca, que atua no plano físico, e realizar o Achamanya, que atua no plano espiritual. Portanto o trecho se refere às noções de pureza ritual onde a limpeza física é uma obrigatoriedade nos rituais. Entretanto este não é o caso no contexto deste rito especifico onde o Kaula Upanishad é recitado.

(ESTE COMENTÀRIO AINDA NÃO ESTÁ TERMINADO)

Que Mãe Kali nos abençoe

Templo de Kali

Rudra Natha

 

Retirado de: www.kaulatantra.com.br/2012/05/comentando-o-kaula-upanishad.html